"Se pudesse, faria tudo de novo. As pessoas têm que ajudar a quem precisa". Estas foram as palavras do estudante de desenho industrial Vítor Suarez Cunha, de 21 anos, ao sair do Hospital Santa Maria Madalena na tarde desta quarta-feira. O rapaz passou por uma cirurgia na qual 63 pinos foram implantados no seu rosto após defender um morador de rua de um espancamento promovido por um grupo de cinco jovens.
"Foi tudo muito bom (sobre a recuperação), nem acredito que estou falando normal. Hoje é um dia ótimo para mim. Quero agradecer a todo mundo que me deu apoio e rezou pela minha recuperação", comemorou Vítor.
De acordo com o cirurgião buco-maxilo-facial Silvério Moraes, que operou a vítima, é preciso esperar cerca de dois meses para uma análise mais precisa sobre possíveis sequelas. O universitário está otimista:
“Estou melhorando, mas tem todo esse processo ainda para eu me acostumar, com a cirurgia. Mas, em vista de tudo, estou ótimo. Quero voltar a fazer as coisas que eu fazia, poder comer o que eu comia, sair, ver televisão”, disse Vítor, à Rede Globo.
O último dia 2 de fevereiro — data em que Vítor e o morador de rua João Araújo Teles, 47, foram espancados — não era uma data qualquer na vida de um dos cinco acusados do crime. Horas antes da sessão de espancamentos, Tadeu Assad Farelli Ferreira, 20, começava a pagar à Justiça por um crime que cometera em novembro de 2010: outra agressão a um jovem que seguia para a escola, no mesmo Jardim Guanabara, bairro de classe média alta na Ilha do Governador.
Tadeu não compareceu à nenhuma audiência daquele processo e foi condenado pelo crime de lesão corporal leve ao pagamento de R$ 700 em cestas básicas, divididos em três parcelas. O despacho judicial foi divulgado justamente no dia 2 de fevereiro, após poucas horas das novas cenas de violência que protagonizou.
O adolescente agredido em 2010 conta que caminhava para a escola pela Rua Francisco Alves, a menos de 100 metros da agressão do dia 2, quando recebeu um soco no rosto. Nesta terça-feira, a vítima, que foi atingida pelas costas, festejou a decisão da Justiça. “A Ilha é um bairro de moradia. Eles acabaram com a paz da gente. Isso tem que ter um fim”. Procurada, a advogada de Tadeu, Xaira Ferreira, não quis comentar o caso.
Outro com antecedentes
Do grupo de cinco suspeitos pelos espancamentos a Vítor e João, outro integrante que possui antecedentes é William Bonfim Nobre Freitas, 23. Segundo registro na 37ª DP (Ilha), de junho de 2010, ele e outros dois jovens são investigados por agressão a um menor de idade, na época, também no Jardim Guanabara.
Na ocasião, a vítima foi abordada durante a madrugada e levou três socos, um na testa e dois na nuca. “Só pararam de bater pois um carro começou a subir a ladeira”, relembra. Durante audiência do processo que corre na Justiça, Willian disse que ‘apenas tentou separar a briga’.
Sexto jovem sem punição
Nesta quarta-feira, mais um agressor foi preso. Felipe Melo dos Santos, o Geminha, 19, ligou para a polícia e marcou encontro para se entregar. Dos cinco acusados com prisão decretada, falta ser preso Edson Luiz Júnior. “Eu prometi ao Vitor que veria todos na prisão. Espero que ao sair dela façam algo de mais produtivo”, desabafou Kleber Carlos Silva de Souza, amigo de Vítor que ajudou a polícia a identificar o grupo.
Ele identificou, ontem, sexto integrante do grupo. Daniel Lopes de Menezes, 21, estava com os agressores na hora do crime, mas não teria participado do espancamento. Embora não tenha tentado impedir a ação, não será indiciado. “Ele confirmou que estava na hora, mas não participou. Não podemos indiciar os que assistiram e não impediram”, disse o delegado Deoclécio Assis Filho.
João Araújo Teles, o mendigo que também foi agredido pelo grupo, pode ser incluído em programa de proteção à vítima. O morador de rua, que tem família e ontem recebeu a visita de uma irmã, está em abrigo da Prefeitura. Ele sofre de alcoolismo e já teria sido acolhido algumas vezes no abrigo Stella Maris, na Ilha. Ele costumava passar as noites no Parque Marcello de Ipanema, junto de outros moradores de rua, a poucos metros do local onde foi agredido.
A Divisão de Homicídios (DH) está investigando a morte do professor de jiu-jítsu Diego Francisco de Oliveira, 24, espancado ao tentar impedir o roubo do carro de amigo na saída de casa de shows em Vila Valqueire, no sábado. Ele morreu na segunda-feira, no Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Informações sobre os agressores podem ser passadas ao Disque-Denúncia (2253-1177).
Expulsão da Aeronáutica por bravatas
Outro amigo dos agressores teve de dar explicações à polícia. O soldado da Aeronáutica Yuri Ribeiro foi intimado a explicar conversa com amiga do estudante agredido no Facebook. “Se estivesse no local da agressão, ele (Vítor) não estaria vivo”, escreveu Yuri, que chegou a desdenhar das prisões. Em depoimento, mudou o tom e se disse arrependido. “Foi um comportamento antiético. Ele foi repreendido”, disse o delegado. A Aeronáutica abriu sindicância e ele pode até ser excluído da corporação.